Almoço mineiro em Tiradentes

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No último final de semana fomos à cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais, para a inauguração do Museu de Sant’Ana. É mais um presente que Minas ganha do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, criado e presidido por sua dinâmica e dedicada filha Ângela Gutierrez. Em 1998, Ouro Preto ganhou o Museu do Oratório; em 2005, Belo Horizonte recebeu o Museu de Artes e Ofícios. Neste último 19 de setembro foi a vez de vermos a antiga Cadeia de Tiradentes transformada no esplêndido museu dedicado às 291 imagens de Sant’Ana, descobertas e trazidas pela colecionadora de vários estados do Brasil e agora doadas por esta extraordinária mulher ao Patrimônio Histórico para constituir este museu.

Vá conhecer os dois outros museus (se ainda não foi) e o novíssimo Museu de Sant’Ana, pois têm obras belíssimas e são muito interessantes.

Porém este é um blog de gastronomia! Aqui compartilhamos os deliciosos pratos e doces da tradicional culinária mineira servidos no almoço de sábado, após nossa visita ao museu.

O conhecido chef Cantídio Lanna preparou para esta ocasião especial – vejam por ordem das fotos:

1- Cuscuz com açafrão, linguiça defumada e feijão roxinho, acompanhado de crespinho de couve;

2- Galinhada (nesta sou craque, passarei a receita em breve);

3 – Lombo de pirarucu (peixe grande encontrado nos rios da Amazônia) com ora-pro-nobis ( folha de uma trepadeira do mato muito comum no interior) e purê de banana da terra ( este estava divino, vou tentar repetir e passarei a receita);

4- Jarré de porco com angu (preparado de fubá com água) e mostarda (trata-se de uma folha de horta um pouco amarga muito apreciada no interior de Minas).

Vejam a maravilha dos doces mineiros – nome nas fotos:

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Doces cristalizados: laranja, mamão verde, abóbora moranga, abacaxi e figo

Estes doces merecerão receitas feitas uma a uma: com tempo iremos preparando e publicando. Minha avó, nascida em Ouro Preto, fazia muitíssimo bem todos eles e tive a chance e a sorte de aprender com ela.

Cassoulet

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A cidadezinha medieval de Carcassone, no sudeste da França, tem a fama de ser o lugar de origem deste prato tradicional da culinária francesa. Fui lá conferir e procurei o restaurante mais antigo da cidade – o põe antigo nisso – funciona ali desde antes do descobrimento do Brasil.

 

Realmente comi o melhor cassoulet da minha vida! Como sempre gosto de fazer, acompanhei no local e de perto o passo-a-passo do famoso prato. O cassoulet vem servido em uma cumbuca de cerâmica saída do forno de barro direto para a mesa.O sabor do feijão branco é delicioso, pois fica cremoso depois das horas que leva cozinhando em panela de ferro sobre brasa. Os outros ingredientes são a coxa de pato, que é feita em separado e depois colocada por cima antes da cumbuca ir ao forno e um tipo de embutido, parecido com nossa linguiça, por ser de lombo de porco. Este fica dias e dias pendurado sobre o fogão de lenha para defumar e depois é cortado em fatias e cozido junto com o feijão. Vamos então ao preparo desta iguaria seguindo de perto a receita original mas feito com a praticidade da cozinha atual.

Cassoulet de pato 

Quantidade de ingredientes para 4 pessoas: 2 xicaras de chá de feijão branco cru e 4 coxas de pato ( já preparadas – veja aqui como cozinhar o pato ), 1 xícara de café rasa de bacon picadinho, 1 cebola picadinha, sal e alho, pimenta do reino branca, louro em pó e mais 2 linguiças calabresas ( a mais semelhante ao embutido defumado da receita original). É fundamental que tenha guardado 2 xícaras do caldo do cozimento do pato.

De véspera, coloque o feijão branco de molho cobrindo com água dois dedos além do nível do feijão. No dia seguinte, cozinhe na panela de pressão com a água que ficou de molho ( deve ficar dois dedos acima do nível do feijão). O tempo de cozimento depende do feijão, normalmente, depois que a panela apita, deixo apenas 10 minutos. O bago deve ficar ainda um pouco duro e devem sobrar 2 xícaras do caldo do feijão cozido.

Enquanto isto, lave e pique a linguiça em fatias finas. Coloque para cozinhar, em separado, com ½ xícara de café de água e deixe que seque completamente. Reserve.

 

Em uma panela larga, frite bem o bacon em um pouco de óleo. Junte 1 colher de chá rasa de sal com alho e a cebola picada bem miudinha ou ralada. Assim que dourar, escorra os bagos do feijão, junte-os à fritura, mexendo com uma colher de pau, no mesmo sentido, até desgrudar do fundo.

Junte a linguiça ao feijão e em seguida, acrescente o caldo de feijão do cozimento. Misture e veja se está totalmente desgrudado do fundo da panela. Acrescente outras 2 xícaras do caldo do cozimento do pato. Misture bem, abaixe o fogo, tampe a panela e deixe que o feijão e a linguiça terminem de cozinhar juntos.

À parte, retire o excesso de gordura e pele das coxas de pato, conservando-as inteiras.

Quando o caldo estiver de boa consistência e o feijão já bem cozido, prove o tempero, acrescentando pimenta do reino branca, louro em pó e sal, se necessário.

Coloque as coxas de pato na panela por cima do feijão, pouco antes da hora de servir, a conta de esquentar junto. Sirva com cuidado, para as coxas não se desfazerem. Porém, se quiser servir à francesa, sirva as porções de feijão com linguiça em cumbucas de cerâmica, com uma coxa de pato em cada uma e leve ao forno só para esquentar.

Na França, o acompanhamento é apenas uma baguete bem crocante. O cassoulet pode ser servido com arroz branco à parte.

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Caldo de Feijão

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Tem coisa mais mineira do que caldo de feijão? Começou um friozinho, a gente já põe mais feijão pra cozinhar e logo à noitinha vem aquele cheirinho bom lá do fogão anunciando que o caldo está quase pronto! Não existe Festa Junina sem ele. Qualquer bar ou boteco que se preze serve um excelente caldo de feijão no fim da noite. A principal serventia é curar a ressaca da cachaça e também mata a fome com gosto, pro cara ir pra casa feliz e sossegado.

Caldo de feijão

O melhor feijão para o caldo é o jalo ou carioca, pois é mais macio e a casca some no cozimento. Além do feijão, vai precisar de óleo, sal com alho, cebola, bacon e cebolinha verde. Se nunca fez feijão na vida, veja primeiro a receita já publicada no blog em 28/11/2013.

Coloque o feijão de molho na água desde a véspera (cubra o feijão e deixe mais um dedo de água), para gastar menos gás e cozinhar mais rápido. Despeje o feijão e a água em que ficou de molho na panela e cozinhe na pressão. O tempo de cozimento vai depender do feijão. Deixe que os bagos cozinhem bem, mas sem arrebentar a casca. Preste atenção, pois é preciso que sobre caldo do cozimento do feijão. Se a água secou, despeje água fervente e deixe cozinhar mais, no fogo baixo, fora da pressão, para o caldo ficar encorpado.

Pique o bacon, a cebola, e a cebolinha. Em outra panela, deite um pouco de óleo e frite o bacon. Retire-o da panela com uma escumadeira, ponha para secar sobre papel absorvente e reserve. Doure o sal com alho e a cebola picadinha bem miúdo na gordura do bacon. Assim que corar, vá colocando na panela, com a ajuda da escumadeira, os bagos do feijão bem escorrido e mexendo o tempo todo com uma colher de pau. Mexa até que forme um purê. À parte, esquente o caldo do cozimento do feijão e vá despejando-o na panela aos poucos até que adquira a consistência de caldo. Se não estiver lisinho, pode bater o caldo no liquidificador para facilitar. Volte com o caldo para a panela; se ficar muito grosso, despeje mais caldo ou água fervente e continue mexendo até adquirir a consistência ideal de caldo. Se estiver ralo, deixe que o caldo seque , no fogo baixo, mexendo sempre. Agora tempere com molho de pimenta malagueta e um pouquinho de louro em pó. Verifique o sal. Se não for servir em seguida, deixe o caldo mais ralo, pois ao esfriar e esquentar de novo, engrossa bastante. Por favor, jamais coloque farinha de qualquer tipo no caldo de feijão!

Ao servir, coloque no prato, por cima do caldo, o bacon e a cebolinha verde. Há quem sirva o caldo de feijão acompanhado de linguiça de porco frita e torresmo.

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O feijão do tropeiro

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Duas preparações de feijão à mineira em seguida? Exato, pois são duas variações para acompanhar o lombo à mineira, que já está temperado e vai para o blog amanhã. Também fazem parte da mesma história!

Quando, no século 17, as Entradas e Bandeiras subiram as montanhas de Minas à procura de ouro, esmeraldas e diamantes, precisaram levar uma carga bem variada e pesada, que eram não só suas ferramentas de trabalho como barracas, cobertas, vestuário e mantimentos.  Quem fazia este serviço, comandando a tropa de escravos, conduzindo as mulas de carga e pequenos animais como galinhas e porcos eram os chamados tropeiros. Em geral, estes homens mestiços de confiança do patrão bandeirante eram quem conduzia e dava ordens à tropa.

Os primeiros bandeirantes exploravam o ouro de aluvião, ou seja, o que era coletado com bateias nas águas rasas de riachos. Assim que as pepitas de ouro começavam a escassear em um determinado ponto, os homens desmontavam  tudo e subiam rio acima, ou então procuravam outro veios. Desta forma, ficavam de 2 a 4 meses em um mesmo local. Assim que escolhiam onde montar novo acampamento, plantavam vegetais como feijão, couve, cebola, alho e ervas, que podiam ser colhidos em pouco tempo e também montavam o cercado para criar galinhas e porcos. A mandioca era nativa e fácil de secar e socar para virar farinha e ser guardada. Assim, tinham sempre à mão feijão, farinha e ovos. Quando um porco era abatido, comiam a carne, faziam linguiça com as tripas e miúdos e guardavam o que restava em latas com banha.  A comida de sustança da tropa no domingo, que além do feijão diário tinha direito aos restos da carne de porco consumida pelos patrões, era chamado de feijão do tropeiro. Hoje, é um prato tradicional preparado maravilhosamente nos restaurantes das cidades históricas de Minas Gerais. Você pode fazê-lo em casa!

Feijão tropeiro

O melhor feijão para este prato é o roxinho, por ter os bagos mais firmes. Vai precisar de bacon, cebola, linguiça e/ou pedaços de carne de porco, farinha de mandioca, ovos e ervas, como salsinha e cebolinha. Há quem misture ou adorne com couve e torresmo. Uma boa pimentinha é indispensável.

Para 4 pessoas separe ½ kg ou 2 xícaras de chá bem cheias de feijão. Coloque de molho na água de véspera para facilitar o cozimento. Atenção: cuidado para não cozinhar demais o feijão, os bagos precisam ficar ainda um pouco duros.

Corte o bacon ( 1 colher de sopa), a cebola ( 2 colheres de sopa), os pedaços de linguiça e de carne, do tamanho que caibam na boca sem precisar partir no prato. Pique a salsinha e a cebolinha. Separe 2 a 3 ovos.

Muita gente faz este feijão misturando tudo na panela, afirmo que não vai prestar, pois vira uma maçaroca.  É preciso que seja feito em 3 panelas. Na primeira panela, frite o bacon, a cebola e o sal com alho. Escorra bem o feijão do caldo e frite os bagos com cuidado para não parti-los. Misture então 1 a 2 colheres de farinha de mandioca. Se ficar seco, ponha um fio de azeite ou um pouco de manteiga. Na segunda panela, esquente ou frite a linguiça e/ou a carne de porco. Na terceira panela, frite os ovos, já misturados ligeiramente, no óleo ou na manteiga, salpique o sal e assim que endurecer, corte-o em pedaços grandes. Agora misture as carnes e depois os ovos ao feijão, com cuidado para não ficar pastoso. Prove o sal e a pimenta, acrescente o cheiro verde e sirva quente.  Acompanha couve e arroz.

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Primeiro cardápio: Brasileiríssimo

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Sal com Alho

Arroz, feijão, bife, batata frita, salada a gosto.

Agora que você já sabe fazer estas receitas básicas, pode servir recém-preparado e quentinho aquele prato com o inigualável gosto de infância.

Vamos ao primeiro teste: terminar e colocar tudo junto na mesa. Pensa que é fácil? Hum, hum. Tente!

1. A primeira coisa a fazer é cozinhar e fazer o feijão. Prepare a salada e ponha a mesa enquanto o feijão cozinha. Depois, enquanto o feijão ferve, corte e tempere a carne. Deixe o feijão pronto, porém com bastante caldo. Desligue.

2. Faça o arroz; assim que colocar a água e tampar a panela, já pode descascar e cortar as batatas. Vigie a água do arroz.

3. Faça o picadinho. Enquanto seca a água da carne, coloque o óleo na panela para a batata, espere esquentar, coloque as batatas. Assim que mudarem de cor, reduza o fogo e tampe a panela. Volte para o picadinho e termine-o.

4. Esquente o feijão no fogo fraco; o arroz ainda deve estar bem quente. Escorra as batatas. Faça o molho do picadinho e volte com o picadinho para a panela para pegar o molho e esquentar.

Tudo pronto! Agora é só servir e receber os elogios.

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Mexido: a solução perfeita para aquela fome de domingo à noite

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Sal com Alho

O mexido (ou como diz o mineiro “mixido” ) é a nossa versão brasileiríssima do risoto italiano, da paella espanhola e de outras misturas do que se tem à mão ou do que sobrou na geladeira. Porém, em nossa casa, o mexido tem seu lugar de honra no domingo e, durante a semana, ao se fazer o feijão, o arroz e o picadinho, já se reserva algum à parte.

Preparados para o melhor mexido que já comeram na vida?

Basta uma panela baixa e larga e uma colher grande.

Para duas pessoas, veja se tem tudo isto: arroz, feijão, picadinho com molho, 2 ovos, sal com alho, ¼ de cebola picadinha, 1 colher de sobremesa de bacon picadinho, ½ tomate cortado em cubinhos, salsinha e cebolinha picadinhas.

Coloque um fio de óleo ou azeite na panela. Frite a cebola, o bacon e um tiquinho de sal com alho. Quando começar a pipocar, acrescente uma xícara cheia de bagos de feijão pronto bem escorrido. Mexa. Misture ligeiramente a clara com a gema dos ovos em uma xícara. Abra um buraco no meio da panela e jogue os ovos. Espere fritar. Assim que ver a clara branca, misture gentilmente com o feijão, sem despedaçar. Faça novo buraco no meio da panela, despeje uma xícara e meia de arroz e o mesmo tanto de picadinho molhadinho no molho. Misture tudo com cuidado, coloque umas gotas de molho de pimenta. Sirva em prato fundo, com o tomate e o cheiro verde por cima. Acompanha pimenta, pode ser a biquinho, que não arde e tem um sabor delicioso!

Dica: não acrescente farinha de mandioca, pois o mexido ficará seco.

Variações que nós inventamos:  

1. Mexido mineiro: substitua o picadinho de filé por picadinho de lombo ou pedaços de lombo assado e linguiça frita picada.

2. Mexido carioca: substitua a carne por linguiça calabresa ou paio cozido e fatiado. O feijão deve ser o preto. Corte couve bem fininha, passe em pouco óleo e acrescente no final. Sirva com fatias de laranja e vinagrete.

3. Mexido paulista: neste é só trocar o picadinho por carne de panela.

4. Mexido carreteiro: exagere no alho (cortado em cubinhos) e na cebola (cortada em rodelas) que deve fritar até ficar moreninha. Coloque só carne seca desfiada e linguiça. Este não tem feijão.

5. Mexido da roça: substitua a carne por frango desfiado e acrescente milho e cenoura vermelha em cubinhos. Não tem feijão. Depois que misturar tudo, acrescente um pouco de água quente e deixe ferver por cinco minutos. O mexido vai ficar mais molhadinho.

 

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Seu feijão no ponto certo

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Esta do Chico Buarque de “e vamos botar água no feijão” é só frase de efeito.

Tudo em culinária tem seu ponto certo. Feijão aguado e esbranquiçado ninguém quer. Tem muita gente que não acerta no feijão, mas este problema vai acabar!

Vamos considerar aqui o preparo do feijão comum: carioca, jalo, preto, roxinho.

Coloque meio quilo de feijão na panela de pressão e despeje água até uns três dedos acima do nível dos bagos. O tempo normal de cozimento é tipo vinte minutos. Para economizar gás de cozinha e reduzir o tempo de cozimento, coloque o feijão de molho na água de véspera e cozinhe-o aproveitando esta água. Atenção: só destampe a panela depois que perder toda a pressão; se estiver com pressa coloque-a debaixo da torneira aberta. Confira se os bagos estão macios porém firmes. Se ainda estiverem duros, volte com a panela para o fogo sem a pressão. Se o feijão estiver cozido demais, não desanime dará um ótimo caldo de feijão.

Guarde o feijão cozido sempre com a água do cozimento. No congelador, pode ser por um bom tempo, mas na geladeira, no máximo por dois dias. Sempre descongele completamente antes de levar à panela.

Agora vamos à receita de feijão para duas pessoas:

À vista: panelinha, escumadeira, concha e colheres grande, de sopa e de café.

Óleo, sal com alho.

Aqueça a panela, despeje uma colher de sopa de óleo e frite bem uma colherinha de café mal cheia de sal com alho. Escorra quatro escumadeiras cheias de bagos de feijão e misture na panela. Com a colher grande, mexa o feijão para não agarrar no fundo e depois dê uma amassadinha ligeira em alguns bagos.

Remexa até que crie uma crosta fina no fundo e nas laterais da panela. Despeje duas conchas grandes cheias do caldo do cozimento e misture. Vai formar uma espuma branca, que irá reduzindo até sumir. Continue mexendo, o suficiente para não agarrar. Prove o sal. Quando o caldo começar a estourar umas bolhas grandes já deve ter engrossado o suficiente. Seu feijão está pronto!

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