Finisterra – Frutos do mar incríveis

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Fim da terra – Finisterra ! Este foi o nome dado pelos romanos a esta península no ponto mais ocidental de toda a superfície terrestre então conhecida. Mais além, do lado que o sol se punha sobre a linha plana do horizonte, havia, segundo acreditavam , apenas o oceano sem fim, povoado por monstros terríveis que engoliam as embarcações que se aventuravam pelos mares bravios.

Despedidas, promessas de novas aventuras e novos encontros! Última noite das Caminhantes no Caminho de Compostela que, na verdade, termina em Finisterra. Comemoração a altura, na famosa marisqueria Dom Percebe, onde tradicionalmente os peregrinos se congregam para celebrar o final da longa jornada.

Um verdadeiro festival de frutos do mar! Para iniciar,as apreciadas almenjôas, servidas no molho de azeite com limão siciliano. Em seguida, as estranhíssimas e deliciosas percebes – uma raridade das costas a norte da Espanha que parecem patinhas de dragão ( vi no mercado de Santiago a 109 euros o quilo!) Depois vieram as navajas – assim chamadas porque parecem cabo de navalha. De lamber os dedos!

O cardápio oferece muitas opções – mais de 15 tipos diferentes de frutos do mar, incluindo ostras, mexilhões e camarões gigantes – e ainda uma boa variedade de peixes. O prato de peixes grelhados vem com cinco qualidades do Atlântico. Há também as opções de lagosta grelhada e de bacalhau com batatas.

Olhem as fotos e vejam se não é para voltar triste para casa – no meio das montanhas de Minas Gerais a 450 km de distância do mar – me perguntando porque uma mineira gosta tanto dessas coisas!

Veja a última pontinha de terra que avança pelo Oceano Atlântico e o marco final oficial do Caminho de Compostela. Fim da jornada!

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León – Vamos de tapas?

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O ponto alto do caminho francês de Compostela, no que tange à história e cultura é, sem dúvida, a cidade de León, fundada no século I com o nome de Legio, tendo sido um acampamento militar fortificado para defender as minas de ouro da região. Cresceu em riqueza e importância estratégica tornando-se, na Idade Média, objeto de disputa entre os cristãos residentes e invasores visigodos e posteriormente, muçulmanos. Foi a rica capital do Reino de León e hoje é a maior cidade (136 mil habitantes) da Comunidade Autônoma de Castilla y León. Sede de destacadas universidades, é um bela e elegante cidade histórica, sempre alegre e movimentada, repleta de jovens e de turistas.

Se você pensa em estudar espanhol, León é uma excelente opção.  Para quem ama história e arquitetura, a cidade é uma festa para os olhos, com destaques para a belíssima catedral gótica, o imponente edifício do parador San Marcos (onde hospedamos) e a Casa de Botines – uma interessante obra da fase inicial de Gaudi. Eu, que sou arquiteta, apaixonei-me pela cidade, pois além de tudo, é um museu de estilos arquitetônicos a céu aberto, de muralhas romanas a igrejas românicas, góticas e renascentistas, de edifícios art-nouveau e art-decô a perfeitos exemplos de pós-guerra, anos 70 e pós-moderno e até um dos museus mais modernos do mundo – o Musac.

Como sempre, tenho a sorte de chegar nos lugares justamente em dia de festa. A Feira de San Froilán atrai gente de toda a região e há o setor judeu, o árabe, o de produtos artesanais – desde alimentos até roupas e semi-joias, a feira de flores, barracas vendendo todo tipo de comidas regionais, enfim, muita coisa interessante. Os bares e restaurantes, com mesas espalhadas nas ruas de todo o centro histórico, ficam lotadas de gente que “vai de tapas”: paga-se por uma bebida (muita cerveja mas também excelentes espumantes e vinhos; whisky e coquetéis)  e, como cortesia da casa, são servidos três tira-gostos. O costume é começar ao pôr do sol e seguir até a madrugada, indo de bar em bar para se provar de todos os tapas. Topamos a experiência e lá fomos nós. Só teve um problema: talvez devido à efervescência do lugar todas as fotos que tirei dos tapas saíram desfocadas, exceto a primeira (foto principal) e depois, no dia seguinte… bem, esqueci-me do que havia comido, embaralhei tudo! Desafio: vá lá em León, passe a noite de bar em bar, beba e coma de tudo e tente depois me contar!

Calzadilla – a tortilla perfeita

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Continuando nossa caminhada pelo Caminho de Compostela, saímos bem cedinho de Sahagún para alcançar Calzadilla de la Cueza na hora do almoço. O espanhol típico começa a trabalhar por volta de oito/nove horas da manhã e segue até o meio dia / uma da tarde. Então fecha o seu estabelecimento – mesmo que este seja um restaurante ou lanchonete! – e vai para casa almoçar. Depois, vem a sagrada “siesta” e só voltam a abrir o comércio e os escritórios depois das quatro da tarde, para fechar às sete horas. Depois deste horário permanecem abertos somente os restaurantes. Pois em Calzadilla fomos fazer um lanche – que na verdade foi um almoço – quase às três da tarde! Talvez porque nossa fome era muita achamos tudo uma maravilha!

 

Os destaques foram os pães caseiros, o fantástico queijo de cabra da região e os diversos embutidos – jamon ibérico (presunto defumado de porco), cecina (defumado de carne de vaca famoso desta região), chorizo (tipo copa) e um outro do tipo do salaminho italiano. Como já nos aproximávamos da Galícia, apareceram a maionese de atum e o bolinho de bacalhau, iguais aos que minha avó materna fazia ( seus avós eram portugueses do Norte, já perto da Galícia) e tão comuns em Minas Gerais. Os ingredientes da maionese são: ovos cozidos, batatas, azeitonas verdes, atum desfiado e a própria maionese ( bate-se o ovo com o azeite no liquidificador em baixa velocidade).

Porém, o sucesso do dia foi a tortilla mais linda e mais gostosa que já comi. E olha que já provei tortilla pelos quatro cantos da Espanha! Bem grande – uns 30 cm. de diâmetro e bem alta – uns 7 cm de altura e muito, muito fofa. Perguntamos ao simpático dono do restaurante a receita – claro que a princípio não quis nos dar. Mas fizemos tantos elogios e insistimos tanto que ele acabou por chamar o cozinheiro para explicar como fazer. Surpresa: era um brasileiro!  Eis como ele nos passou a receita: bate os ovos, junta com as batatas cortadas na frigideira, tempera com sal. Espera corar e vira do outro lado. Parece fácil, não é? Porém, tem detalhes…

Receita da famosa Tortilla de Calzadilla (por minha conta) 

É necessário que se tenha uma panela especial – ou melhor, são duas frigideiras que se encaixam – como estas omeleteiras, só que tamanho gigante ( espiei e vi-as na cozinha!) Cortam-se as batatas em lascas finas (ele não disse mas eu sei que há de se enxugá-las envolvendo-as e apertando-as com um pano). Batem-se os ovos ( também sei que bate-se primeiro as claras até dar volume e depois vai-se juntando as gemas). Unta-se a frigideira ( já ligeiramente aquecida com azeite, a conta de formar uma fina camada em todo o interior). Deita-se a terça parte dos ovos batidos, salpica-se o sal, coloca-se a metade das batatas sem sobrepô-las, mais um salzinho. Repete com a camada de ovos, sal , batatas, sal. Finaliza com os ovos. Isto tem que ser feito muito, muito rápido. Aí está o segredo! A esta altura a tortilla já está corada no fundo, então se emborca a outra frigideira e vira as duas juntas para corar do outro lado (haja força nos punhos!) Experimente fazendo uma pequena, mas se não ficar tão bonita como a da foto, console-se – é necessário muita prática! Vai treinando…

De sobremesa, veio uma tortinha deliciosa – massa feita com farinha de trigo, amêndoas, leite, açúcar e manteiga. Como recheio, maçãs. Você pode usar outras frutas ou geléias. É uma receita bem comum na Europa e fica para outro dia.

 

Frómista – Lechazo ou cordeiro de leite assado

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Hoje iniciamos o primeiro trecho de nossa peregrinação pelo Caminho de Santiago. Na verdade, confesso, não me sinto uma peregrina, sou apenas uma caminhante, apesar de carregar comigo o cajado e a concha -os símbolos do Caminho – e de seguir, com bastante disposição e coragem, as setas amarelas que nos conduzirão ao destino final.

Seguindo pelo “Caminho francês”, de Burgos a Frómista são ao todo 85 km. Destes, percorremos a pé, durante a manhã, o trecho final entre Boadilla del Camino e Frómista, margeando o Canal de Castilla. A caminhada é muito agradável. O terreno é plano, a ampla vista dos verdejantes campos agrícolas contrastando com o descampado do céu profundamente azul é belíssima. A proximidade da água torna parte do caminho fresco e sombreado. Respira-se ar puro, um suave aroma de mato purifica nossos pulmões e o incessante e festeiro chilreio dos pássaros enche nossa alma de alegria.

Após duas horas de caminhada paramos para apreciar a vista, beber água límpida de poço e saborear deliciosas maçãs colhidas no pé – achei incrível! Mais adiante, outra parada para nos refrescarmos sob as frondosas árvores que cercam o dique e reunir coragem para avançar colina acima até Frómista, pensando na recompensa do delicioso almoço a nos aguardar!

Frómista é pequena e muito simpática.  Tem um casario antigo pintado em cores ocres, uma bela igreja românica – a igreja de San Martin, que neste estilo é a mais original e bem conservada de toda a Espanha – e outras construções milenares, erguidas sobre ruínas dos tempos dos romanos. Se gostar de um lugarzinho bem pacato, vá morar lá, é perfeito!

No restaurante Villa de Frómista nos aguardavam surpresas maravilhosas. Para começar, um bom vinho branco refrescante servido com morcilla ( embutido de carne, gordura e sangue de porco, de cor bem escura) . Como primeiro prato, salada e langostinos ( camarões gigantes) grelhados na brasa e servido ao ajo & aceite (alho e azeite de oliva)

O prato típico da região é o lechazo, o cordeirinho de leite ( ainda não desmamado ao ser abatido) assado no forno a lenha, como aqueles de tijolos em formato de semicírculo que se usa para assar pizza.  A carne é muito macia e saborosa. Batatas fritas são o acompanhamento tradicional. Com estas há de se tomar cuidado pois, crocantes por fora e derretendo na boca ao serem mordidas, dá vontade de nunca parar de comê-las. De sobremesa, arroz com leche ( igual ao nosso arroz doce mineiro) e flan de huevos ( pudim de leite com ovos). Comemos bastante, sem arrependimento – afinal havíamos gasto muitas calorias com a caminhada da manhã!